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Miriam Mambrini 

 

Uma coisa é certa: Escrevo sozinha, de preferência no meu quarto. Preciso de paz e silêncio, sem eles não há espaço para as ideias brotarem. Não gosto de interferências, Miriam isso, Miriam, aquilo, atrapalhando o mergulho no meu outro mundo, só meu, o mundo da criação. O escritor cria, inventa, mesmo quando parte de algum fato real. Decide quem serão seus personagens, o que eles vão sentir e dizer, como se relacionarão, em que ambientes viverão. Para criar, tenho que ficar fora do meu congestionado cotidiano.

Gosto de escrever de manhã, depois do café. Me perco nos caminhos que vou trilhando e esqueço a hora. Encontro meu marido de cara amarrada, esqueci que tinha prometido isso ou aquilo, esqueci as compras. Chego sempre atrasada nos compromissos.

Escrevo nas brechas. Quando sobra tempo, manhã, tarde, noite, o que der. Às vezes, há tempo livre, mas me distraio com o casal de pombos que fizeram ninho na minha janela e se revezam no choco, com a arrumação de uma gaveta que abri por acaso, e está um caos, com a lembrança de que ainda não dei um telefonema importante. Com isso, perco meu momento de criação.

De vez em quando rascunho à mão no papel que estiver à minha frente um início, ou meio, ou final de alguma história, mas isso é raro, pois os papéis se perdem. É o computador a testemunha do surgimento das ideias, é ele quem as fixa, transformadas em palavras. Companheiro e aliado no difícil trabalho de tirar alguma coisa do nada.  Neste em que escrevo e nos muitos que o antecederam, nasceram romances, contos, crônicas, artigos, posts no blog e no facebook, e-mails…

Escrever não é fácil. Nem sempre o tempo possível para escrever coincide com o real momento de criar, isso que alguns chamam de inspiração. Nem sempre vem logo a verdadeira frase, a palavra certa. Mas é preciso escrever, nem que seja para depois reescrever ou apagar, abrindo espaço para algo melhor. A escrita depende mais do trabalho e da persistência do que da tal da inspiração. Pego um livro, o que estou lendo no momento ou outro, e, sem plágio, sem que o que li tenha alguma coisa a ver com o que vou escrever, surge a ideia e volto a digitar.

Posso também estar escrevendo mais de um texto ao mesmo tempo. Como agora. Deixei o romance policial de lado para contar a vocês como é minha rotina, mas ele não saiu da minha cabeça. Acho até que quando voltar ao capítulo em que parei, já terei resolvido minha dúvida principal e saberei quem é o assassino.

 

Miriam Mambrini é carioca, formada em Letras pela PUC-Rio. Em 1994 publicou seu primeiro livro de contos, O baile das feias (Ed. Obra Aberta). Nesse e no que se seguiu, Grandes Peixes Vorazes, incluiu contos vencedores de vários concursos literários. Escreveu, entre outros, os romances As pedras não morrem (Bom Texto, 2004) e O crime mais cruel (Bom Texto, 2006), que foram adquiridos pelo Programa Nacional de Bibliotecas Escolares. Participou das antologias de contos 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (organização de Luiz Ruffato – Record, 2005) e Contos de escritoras brasileiras (Martins Fontes, 2003), entre outras. Seus dois romances mais recentes são Ninguém é feliz no paraíso (Ímã Editorial, 2012) e A bela Helena (7Letras, 2015).

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