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Nara Vidal 

Sou preguiçosa e tenho pouquíssima disciplina. Penso muito e não faço tanto. Se por um lado condeno em mim o mais sedutor dos pecados capitais, vejo na falta de regime uma vantagem. Frequentemente penso sobre escritores que têm hora certa para trabalhar. Seria lindo se tudo fosse tão singelo assim. O fato é que agora, por exemplo, estou escrevendo na sala de embarque, aproveitando o barulho impessoal do aeroporto. A minha falta de regras para criar me permite escrever inclusive quando a casa cai. Tenho dois filhos pequenos. Estou trabalhando um livro com textos mais duros. Estranhamente debaixo da minha mesa, enquanto todo o drama acontece no laptop, duas crianças brincam de pique-esconde. Coitados. Não têm culpa da mãe ser escritora.

Quando eu fazia Letras no Fundão, levava tudo muito a sério. Tinha hora pra escrever, tinha rituais. Devia ser insuportável! Mas lá atrás eu ainda não tinha filhos. E os filhos ensinam a gente a pisar no chão e rir de si mesmo. Rir inclusive da falta de rotina! A única questão que eu faço é de um café e, depois, quando o relógio muda de roupa, um tinto.

Minha escrita talvez ecoe a mudança de estações. Aqui na Europa são muito definidas e algo acontece lá fora que reflete aqui dentro. Nunca sei precisar como cheguei ao final de um texto. Às vezes ele começa pelo fim. Muitas vezes começa com um desfecho que se altera por completo. A cabeça está constantemente embaralhada e distraída. A escrita serve para tentar acalmar o que pulsa. Usualmente o inverso acontece. É quando a escrita me deixa ansiosa, agitada. Uma caminhada nos parques vazios daqui me acalma. Por vezes me ocorre uma palavra ou frase que eu sei que vão virar um texto. Tento colocar aquilo no papel pra não perdê-las de vista. Pode inclusive acontecer de eu voltar de uma caminhada falando sozinha. Tento me vigiar, já que acho isso esquisitíssimo. Pode ser que essas ideias me decepcionem e não virem coisa nenhuma. Fragmentos me vêm quando estou no trem, no metrô, num café. Vários deles vou usar depois. As pessoas me fazem sonhá-las, imaginá-las, julgá-las e dou a elas um destino a partir de um gesto, um objeto. Por exemplo, estava sentado ao meu lado agora, um senhor que mexia as mãos enquanto falava sozinho. Estava aflito. A partir daí, traço o dia desse homem, as razões de estar no aeroporto, etc e tal. Não consigo evitar. É um hábito. Mas se existe algo que costura minha escrita é a insignificância dos temas. Sempre que algo extraordinário aconteceu ou alguém me diz que aquilo daria um livro, é porque não daria. Tudo o que eu consigo criar vem precisamente da insignificância das coisas. Detalhes que ninguém nota e que provavelmente não fariam diferença alguma.

 

Nara Vidal é mineira de Guarani. Formada em Letras pela UFRJ, é Mestre em Artes pela London Met University. Mora na Europa há 14 anos. É autora de infantis, juvenis e seu primeiro adulto, “Lugar Comum”, já em reimpressão, foi lançado em abril deste ano. Nara já participou como autora palestrante em diversas feiras literárias como a Flipoços, Clim, FNLIJ e Cheltenham Festival. Premiada com o Maximiano Campos e com o Brazialian Press Awards, Nara tem textos publicados em revistas como Germina, Mallarmargens e Confeitaria. Escreve sobre dança e artes para publicações inglesas.

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