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Rafael Schultz Ribeiro

Em vez de expor aqui meus hábitos, manias e processos de escrita, farei algo que julgo ter mais valor a quem se interessar. Compartilharei com vocês uma notícia com que me deparei em um jornal pequeno, no ano passado. Logo, não se trata de mero “ouvir falar”. Ainda que o conteúdo dos impressos possa e deva ser questionado, lá estava, nas páginas de um jornal, que eu próprio li, recortei e guardei numa pasta azul, velha e de elástico frouxo. Não sei exatamente como conseguiram as informações de caráter íntimo, mas segue o que foi publicado.

“Frederico Weimar tinha o semblante sério, protocolar, e era de poucas palavras no trato cotidiano. No seu peito, contudo, habitava um coração de artista. E a arte que escolhera, ou que, talvez, lhe escolhera, era a literatura. Decidiu, pois, contar uma história ao mundo. Para isso, seguiu uma trajetória que, a princípio, seria recomendável a qualquer escritor iniciante. E eu, previsível jornalista de pensamento cartesiano que sou, sem a intensidade de espírito dos poetas, passo a enumerar seus passos nesse caminho.


I – Buscou um chamado para a sua história. Estabeleceu o que gostaria de transmitir com ela. Decidiu que confrontaria seus leitores com os riscos de se insistir em um modelo de pensamento, sociedade e Estado, o qual já se mostrou fracassado. Para isso, traria, em sua obra, “uma distopia, um futuro fantástico, surreal, terrível e maravilhoso, ambientado na Zaratávia, onde aparentemente concretizou-se uma impossibilidade, a morte de Deus”. Demonstraria que, “apesar do infortúnio imposto, não se dissipara a força intangível presente em cada ser humano vivo” (suas próprias palavras);

 

II – Organizou sua história. Traçou a estrutura dos capítulos, o que aconteceria em cada. Anotou as características dos seus personagens, local e data de nascimento, nome completo, temperamento, além outras variadas qualidades;

 

III – Cultivou o hábito da leitura. Já possuía o bom costume, e não deixou de ler, mesmo enquanto trabalhava na sua criação. Lia prosa e poesia, o que só lhe abastecia de ideias e inspiração;

 

IV – Não escrevia todos os dias – não julgava imprescindível –, mas sempre que possível. Costumava fazê-lo ao extremo da noite, e seguia madrugada adentro, quando tudo era apenas ele e o computador à sua frente;

 

V – Preocupou-se com a escrita, com sua lógica, gramática, sonoridade. Leu, releu, revisou e tornou a revisar o texto;

 

VI – Versão final pronta, buscou sua publicação. Passou meses, talvez anos, procurando uma editora que se interessasse, mas nada. Um editor chegou a propor que alterasse a maior parte do conteúdo e voltasse a lhe procurar, mas não poderia conviver com isso. A verdade é que, de todas as portas a que bateu, nenhuma lhe foi aberta.


Na noite da quarta-feira (26), em abril desse ano, Frederico Weimar atirou-se do terceiro andar, do prédio em que morava na Zona Sul do Rio de Janeiro. Populares relataram o que viram, embora ninguém tenha presenciado o momento exato da queda. Frederico foi encontrado estirado de bruços, sobre uma larga poça de sangue, abraçado a um volume de páginas impressas. Passados poucos minutos, um homem, que não foi identificado, retirou o corpo às pressas, sob pretexto de levá-lo a um hospital próximo. Chegaram, em seguida, uma equipe de reportagem, uma viatura da Polícia Militar e uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), que nada pôde fazer, pois já não havia mais quem socorrer. A polícia concluiu o caso como suicídio. Ocorre que, desde então, Frederico não foi mais visto vivo ou, lamentavelmente, morto. E o mistério sobre o seu paradeiro ainda sobrevive.

 

Desta incrível história, nada restaria, não fosse um pequeno e vasto detalhe. Resgatado do chão sujo e decifrado, apesar do sangue e do asfalto negro grudado às folhas, o original da obra de Frederico foi salvo. Por decisão editorial deste jornal e com autorização da família do autor, sua história será publicada aqui, um capítulo a cada quinta-feira. Nesta edição, o primeiro capítulo de sua obra única. O leitor é convidado a mergulhar no extraordinário mundo de Frederico Weimar.
Capítulo 1 (…)”

 

E tendo acabado de ler a notícia e também o primeiro capítulo daquela história (posteriormente, li todos os outros), não pude deixar de pensar que àquele escritor fantástico só faltou uma qualidade. Se, de fato, morto, faltou-lhe resignação; e se ainda vive, e o mundo observa do breu de sua reclusão, mais ainda.

 

Rafael Schultz Ribeiro é carioca, advogado e escritor, autor de contos, crônicas, como “Quatro e meia”, “O taxista da Samaria”, “Angústia” e “Nova Zelândia”, todos disponíveis na Amazon, além de publicações acadêmicas.
r.schultzribeiro@outlook.com

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