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Paula Fábrio

Escrevo pouco. Corrijo muito. Uma página por dia, quando tudo dá certo. Todos os dias. Oito horas por dia. No computador. Sobre uma escrivaninha de vidro. Ao lado da janela. Com vista para uma sibipiruna que deve ter mais ou menos a minha idade. Com um cachorro a dormir sob meus pés. O cão não viverá muitos anos, está velho e dorminhoco. Mas um dia já correu na praia, como eu. Então sou uma afortunada, suponho.

Leio muito. Não assisto tevê e isso ajuda, imagino. Leio sempre. Clássicos e contemporâneos, de todas nacionalidades. Poesia, prosa, bula e manuais. Grifo as frases novas, as que dizem de outra maneira. Estudo. Se crio algo que valha, é com o silêncio. Me alimento de chocolate nos intervalos. Respondo e-mails e sigo amigos e escritores por aí. Também estendo roupas, lavo a louça, preparo minha comida, dou palestras, oficinas, e isso tudo rouba meu tempo da escrita. Mas a recompensa é a vida.

Gosto do buril, do cinzel, do insert e muito, muito mesmo do delete. Todo dia leio o que escrevo desde o início, para me odiar um pouco, talvez. Depois caminho para fortalecer os músculos, ter algo para a pele se prender. Assim escrevi dois romances. Com linha do tempo, resumo de personagens e arquivos de excel (não, não me perguntem nada). Isso tudo antes que o livro comece a desmoronar. O que acontece lá pela página trinta. Nessa hora percebo minha turra.

Mas agora tenho um livro de contos nas mãos, e enfrento um abismo. No entanto, há uma vantagem a ser colhida. Contaram-me essas histórias há muito tempo. E minha memória começa a falhar.

Ah, sim. Pesquiso pouco. Observo os vizinhos. Topo com personagens a todo momento. Componho vinganças mesquinhas.

Porém, não fujo à regra. Tenho compromissos pragmáticos, receber negativas de editoras é o mais corriqueiro. Aliás, dia desses concluí o mestrado em literatura. E pago contas, não sei dizer como.

 

Paula Fábrio nasceu em São Paulo, em 1970. É escritora e mestre em Literatura pela USP. Seu primeiro romance, Desnorteio, venceu o Prêmio São Paulo de Literatura 2013, como Melhor Livro do Ano – categoria estreante. Um dia toparei comigo (Foz, 2015) foi agraciado com a bolsa de criação literária ProAC.

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