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Agostinho Torres

Acho que todo escritor é meio Oppenheimer, criador e destruidor de mundos. Gerar universos a partir da realidade e das nossas experiências de existência é, para mim, o ponto central da literatura. Só que há uma parte laboriosa e cansativa para se chegar a esse ato germinador, que muitas vezes as pessoas esquecem. Eu subdivido a ação do verbo escrever em dois momentos: a concepção e a inscrição.

A concepção é a parte divertida, a atividade criativa que, grosso modo, as pessoas imaginam ser à função do escritor. É aquela ideia que você tem durante um sonho e anota para tentar desenvolver; a brincadeira constante do “e se fosse assim e não desta forma”; a experiência de criar uma mitologia individual a partir de coisas e pessoas banais; criar mundos a partir de nossa biblioteca mental; a leitura em sequência de vários livros sobre uma temática, como forma de pesquisa para substanciar as ideias; em resumo, é aquele estalo de prazer mental que todos temos constantemente na vida, quando pensamos nos conceitos do que poderia ser uma boa história.

Já a inscrição é a parte chata; durante esse momento o escritor trabalha como um pedreiro da linguagem, que palavra por palavra você vai enchendo uma tela em branco com um tracinho piscando. É cansativo, extremamente entediante e aporrinhador. Ao fim de algumas páginas (entre oito e dez), fico tão cansado que é como se eu tivesse exercido de fato uma atividade física. E o problema maior é que enquanto eu não terminar a obra, minha mente não desliga de sua construção. Por isso eu só parto para a inscrição depois de ter definido o máximo possível da concepção.

Esse é o esboço geral do meu processo de escrever. No entanto cada livro também possui uma história de nascimento própria: O meu primeiro livro, Vagabundo Sem Nome (romance), é fruto de um momento em que eu estava mais beat, escrevi durante um mês inteiro das 23h da noite às 5h da manhã; era o tempo que eu tinha disponível na época, já que de dia estudava na UFPI. O que acontece quando não estamos olhando foi resultado de dois ou três anos apagando e reescrevendo contos. Escrevi no começo desse ano outro livro, que por enquanto estou chamando de Relatos da Interzone, também de contos, em que o processo de concepção foi todo dormindo; eu acordava tarde da madrugada e ficava um tanto perdido sem saber se eu era eu mesmo ou a pessoa que aparecia nos meus sonhos, de alguma forma um enredo bem coerente saia de cada uma dessas noites; depois meu trabalho de inscrição era só tornar a escrita mais segura, acrescentar conteúdo e cortar algumas coisas que não faziam qualquer sentido.

 

Agostinho Torres, 24 anos, escreveu os livros de ficção “O Vagabundo sem nome” e “O que acontece quando não estamos olhando”, além de participar da coletânea “VII Demônios – Luxúria/Asmodeus”. Como historiador participa com artigos em dois livros, “História, arte e invenção” e “História e Vida”; além da monografia “Reimpressões de uma identidade: as diversas facetas da escrita de Jomard Muniz de Britto na década de 60”. Em Abril lança o livro “O que acontece quando não estamos olhando”, uma coletânea de contos.

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