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Eduardo Sabino

Escrever é uma maneira de lidar com o acúmulo. Dos dias, dos pensamentos, das coisas. Uma atividade exótica de intervir no fluxo de informações e imagens e tirar dele a matéria-prima para a ficção. Esse outro lugar, a ficção, se me conforta temporariamente (como confortam os vícios), não me vem jamais como fuga. Pra ser sincero, não creio em literatura de fuga. Literatura para mim é sempre busca, confronto, ruptura e choque. Existe uma coisa obscura a ser dita e não existe outra forma de dizê-la senão pela literatura. Perseguição anunciada.

A primeira fase da escrita acontece na cabeça. Preciso enxergar algo no horizonte que valha a pena ser buscado, nem que seja um sentimento disforme trazido por uma lembrança antiga. Julio Cortázar jurava que podia ter sonhos literários de duas horas em uma viagem de dez minutos no metrô. Distração, imersão, deslocamento são coisas essenciais na forma como enxergo a escrita. Quando estou distraído do mundo, estou colocando argamassa em ruas imaginárias. 5 minutos no chuveiro ou meia hora num ônibus podem salvar um conto.

Na hora de abrir o Word e escrever, prefiro a madrugada. Por ser a sobra entre um dia de trabalho e outro, e pelo clima favorável: o silêncio e a solidão. Música, só antes de começar. Quando em português, me embaralha o pensamento, e escrever é uma forma de organizá-lo, encontrar uma voz na linha cruzada. Em outro idioma, a música influencia no ritmo, quando não na atmosfera do texto. Música clássica, então, me traz ilusões de grandeza (tudo o que você escrever ouvindo Mozart pode soar genial).

Existe uma imagem que faz parte da minha mitologia particular da escrita: um menino com uma lanterna. Quando criança, eu gostava de contar histórias de assombração nas festas de família. Nós, os meninos e meninas das festas, sentávamos em roda num quarto escuro e fazíamos de tudo para aterrorizar uns aos outros. Quem detinha a lanterna, inventava um caso de fantasma ou demônio e podia medir o efeito de seu conto em tempo real, iluminando os rostos dos ouvintes.

Até hoje acredito que escrever é portar uma espécie de lanterna. Projetar um leitor na parede do inconsciente e testar sua reação. Se ele se comover, quem sabe outros não se comovam também?

Eduardo Sabino nasceu em 1986 na cidade de Nova Lima-MG, onde vive atualmente. Em 2009, publicou seu livro de estreia, “Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias” (Novo Século.)  Com o conto “Sombras”, venceu o concurso literário Brasil em Prosa 2015, organizado pelo jornal O Globo e a Amazon. Seu segundo livro de contos, “Naufrágio entre amigos”, será publicado em maio pela editora Patuá.

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