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Antonio Cestaro

A disciplina foi para mim um ensinamento paterno forte e inegociável. Teve peso demasiado na infância e, a partir de certo ponto, ganhou contornos de obsessão. Tive, então, que cuidar para não me aprisionar nas suas distorções e tirar proveito do seu lado positivo. Ao ler e escrever gosto de me apoiar na ideia de que posso fazê-lo com plena liberdade. A liberdade de começar a qualquer tempo; a de parar ao primeiro sinal de insatisfação. Não me refiro ao trabalho de editor, no qual a disciplina equilibrada continua com seu espaço garantido. Mais difícil é escapar de algum tipo de ritual quando a escrita passa a ser uma constante na vida da gente. E esses rituais vão se estabelecendo naturalmente, conforme as experiências positivas. Então, inicialmente, eu considerava um disparate acordar no meio da noite, apanhar lápis e caderno para anotar ideias que surgiam de um sonho ou de um pensamento transitando entre a consciência e o torpor. Depois de algum tempo incorporei essa prática sem maiores resistências e passei a considerar um recurso indispensável para desatar os nós mais apertados que podem surgir numa redação. Outro recurso que adotei foi o de fazer “caminhadas literárias”. Algo simples, que consiste em sair para caminhar levando na cabeça apenas as ideias dos escritos para serem refletidas e “polidas”. Há também aqueles requisitos básicos que são indispensáveis e comuns, como ovos em receitas de bolos: reserva e certo silêncio, que fazem o escritor apreciar cada vez mais a solitude. Como ferramenta complementar de acabamento, “tesouras afiadas nos dedos” facilitam o trabalho de colocar, num texto curto e enxuto, um universo vasto de ideias.

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Antonio Cestaro nasceu em 1965, em Maringá, Paraná. É editor, fundador do selo Tordesilhas, dedicado a literatura. Em 2012 estreou como escritor com o livro de crônicas Uma porta para um quarto escuro, que ganhou o prêmio Jabuti na categoria Projeto Gráfico. Em 2013 publicou seu segundo livro de crônicas, As artimanhas do Napoleão e outras batalhas cotidianasArco de virar réu é seu primeiro romance.

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