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Vivian de Moraes

Certa vez, decidi escrever um conto sobre um tema espinhoso. A ideia pululou à minha frente. Mas eu posterguei a redação, tendo criado já um arquivo em Word, e escrevi na página em branco: “escrever quando estiver com raiva”. Um dia, com raiva, escrevi, e o resultado foi um ótimo conto (claro que sou suspeita).

Infelizmente, não me é possível manter uma rotina de redação. Soube recentemente de um método maravilhoso. José Saramago escrevia apenas duas páginas por dia. Isto mesmo: duas páginas. Mas, peço que o leitor pense comigo: a vantagem de escrever apenas duas páginas é que você pode se deter nelas por meia hora, por três horas ou por dez, a depender do que você queira exprimir. Outra vantagem, apontada pelo próprio Saramago é que, escrevendo duas páginas por dia, você chega a quase mil por ano!

Excelente método, exceto para mim. Por quê? Sou bipolar, das piores. O leitor me entenderá a seguir.

A bipolaridade é uma doença que faz alternarem estados de ânimo, desde a depressão clássica até a absoluta falta de consciência, no estado chamado de mania, que é um estado extremamente criativo, mas com pouca oferta de ordem. O sono, por exemplo, some enquanto estou nesse êxtase. A vantagem é que a mania me deixa muito criativa, embora pouco consciente. É nesses momentos, portanto, que escrevo.

Porém, tudo o que é escrito na mania tem de ser revisto depois. Esse “depois” é necessariamente o estado depressivo, porque vou de um a outro sem um tempo de adaptação. Então é natural que eu ache tudo o que escrevi uma bobagem. E de fato escrevo coisas delirantes e infantis na mania mas, no geral, escrevo coisas que podem ser salvas. Mas não tenho medo de deletar nenhum arquivo.

Recentemente escrevi um romance em 33 dias, para espanto dos meus amigos. Depois, fazendo modificações, acabei gostando muito do resultado. Agora toca a correr editora para achar um espacinho para ele. Outro problema, sem dúvida. Mas esse assunto fica para uma próxima!

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Vivian de Moraes é escritora e autora dos livros “Sonetos Sombrios”, “Poemas e Canções”, “haicais/ vivian/ de Moraes” e “As sete cores do carneiro” de forma independente. O quinto livro, “Desconstrução”, foi lançado pela Editora Patuá em novembro de 2015. Em seguida, participou do livro “Atibaia: uma cidade, vários olhares”, de crônicas. Lançou “Veneno!” (Penalux), livro que organizou, em maio deste ano. “Satan me tirou para dançar” está no prelo, também pela Penalux. Publica no blog viviandemoraes.blogspot.com.

2 respostas »

  1. Duas páginas podem representar trinta minutos ou doze horas de trabalho. Excelente observação, uma vez que nossa criatividade pode ser generosa ou avara. Em gloriosos dias, nossa imaginação pode nos inundar de palavras como as águas que irrompem de uma tubulação. Em outros comporta-se como aquele tubo de pasta de dente já completamente retorcido, incapaz de expelir um mísero grão de massa.

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