Pular para o conteúdo

Ubiratan Muarrek

Para escrever, devo primeiro atravessar o fosso, repleto de crocodilos, que me separa do computador. Isso ocorre bem cedo, pela manhã. É quando meus neurônios funcionam melhor, estou mais atento e posso enfrentar o perigo de cair – desistir – com determinação e destemor.

Foi assim nos seis anos que levei para concluir Um Nazista em Copacabana, meu segundo romance. No primeiro, Corrida do Membro, preferia escrever à noite. Mas descobri que o cansaço do dia pesava demais, adicionando um peso maior ao fardo já suficientemente árduo da escrita.

Com o tempo, cheguei às quatro horas diárias de texto, no limite, iniciadas ao acordar. Como tenho predileção por romances longos, em que o fio e a tensão narrativas são esticados ao máximo, para que a história não se perca, eu não me perca e, assim, não perca o leitor – ele, ou ela, está sempre sentado ao meu lado, observando, cioso, tudo o que escrevo -, é fundamental estar, antes de mais nada, disposto.

O que, por um bom tempo, me pareceu um contra-senso.

Como alçar vôo na imaginação, chegar no estágio em que os dedos se movem sozinhos e que, no final, garante o texto que podemos chamar de literário – em que não há palavras, sentenças, nem papel, há apenas o fio sublime da narrativa, elevando, por consequência, o leitor – quando a casa ao redor se preocupa em sair da cama, aquecer o pão, colocar a roupa da escola, onde enfiaram a toalha?, começar o dia, enfim?

Escrever não seria um ato boêmio, noturno, impermeável, dramático e atroz?

Dramático e atroz, certamente. Impermeável, até certo ponto. No meu caso, com mulher e três filhos, todos em idade escolar, escrever é um hiato que se dá entre o primeiro café e aquilo que os humanos chamamos de trabalho. Não é incomum eu sair do romance e despertar, atônito, para a realidade de um telefonema para um cliente que precisa ser feito ou uma outra tarefa urgente qualquer. Mas continuo firme, quando posso. Geralmente, posso. Ou faço poder. Disciplina e liberdade, como disse Vargas Llosa, são a medula de um escritor.

Então, levanto-me, despeço dos crocodilos e, até a manhã seguinte, tendo o resto do dia pela frente, sigo achando que eles não são tão atemorizantes assim.

____

Ubiratan Muarrek nasceu em Tupã (SP) e mora na cidade de São Paulo. Formou-se em direito pela Universidade de São Paulo (USP) e tem mestrado em mídia e comunicação pela London School of Economics (LSE). Publicou “Corrida do membro” (Objetiva), em 2007. “Um nazista em Copacabana” é o seu primeiro livro pela editora Rocco.

1 resposta »

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Comentários

Manu da Italia em Fabio Rabelo
Fabio Rabelo em Fabio Rabelo
Maria Dolores Wander… em Maria Dolores Wanderley
Cristiano Gabriel em Gregory Haertel
Ana Lucia em Hugo Pascottini Pernet
%d blogueiros gostam disto: