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Cassionei Niches Petry

Gostaria de ser um escritor da madrugada. Na adolescência, ficava muitas noites escrevendo, quando os compromissos profissionais ainda não me afetavam. Era o meu ideal de escritor: o mundo dormindo, minha mesa iluminada pelo abajur, um café quente, a fumaça do cachimbo circulando pela biblioteca, livros espalhados pelo chão, dedos martelando na máquina de escrever, bolinhas de papel amassado na lixeira ou na mesa e uma pilha de papel ofício com a obra-prima “by Cassionei N. Petry”. Hoje preciso acordar cedo, leciono pela manhã, e durmo tarde, porque também trabalho à noite. Por força das circunstâncias, portanto, minha atividade literária é vespertina, salvo nos finais de semana. Pensem numa pessoa organizada. Pensaram? Certamente não pensaram em mim. Não consigo estabelecer uma rotina. Escrevo quando algo me vem à cabeça. Chego a me sentar à frente da tela em branco para criar, porém acabo abrindo um e-book para ler.

Gosto de escrever na minha “toca” (como chamo a garagem de casa que transformei em biblioteca), direto no computador, num PC barulhento, sempre escutando música no fone de ouvido para me livrar de ruídos da rua (para escrever este texto, ouço o álbum “Black Angel”, do Kronos Quartet, com peças de Crumb, Shostakovich e outros) e tomando muito, muito café. (Não sigo nenhum ritual, apenas antes de escrever abro um livro do Deus Kafka, beijo suas páginas e invoco inspiração, repetindo um mantra: “dai-me forças, seu fracote, dai-me coragem, seu medroso, e não me oprima com sua grandeza, seu inseto”. Só isso, algo normal.) Faço rascunhos num caderninho (que chamo de “moleskine de pobre”), no entanto já cheguei a escrever contos inteiros nele (certa feita esbocei um conto no verso de um comprovante de banco). A escrita é muitas vezes afetada pela teimosia do computador, que estraga frequentemente, e a do técnico, que demora para consertá-lo. Uso, então, o notebook da esposa, mas não gosto do teclar nele. Insiro o teclado do PC, mas aí a tela menor também não me é convidativa. O trabalho é adiado, ou volto a escrever as anotações no meu caderninho. Tenho uma máquina de escrever, entretanto ela é apenas decorativa. Sim, é tudo desculpa para adiar a escrita.

Meu livro de contos Arranhões e outras feridas foi produzido dessa forma, aos poucos, durante mais de dez anos, um conto aqui outro acolá. Depois os reuni, percebi certa unidade e o concluí, ainda num volume acanhado quanto ao número de páginas. Escrevo e reescrevo já de forma sucinta, não escrevo páginas e mais páginas que serão cortadas. Os cortes já vêm na minha cabeça. Por isso o romance Os óculos de Paula também não é longo. Este, diga-se, só foi concluído porque tinha um prazo para entregá-lo. Sou movido à pressão. Foi elaborado como parte da minha dissertação de mestrado, portanto com o orientador no meu encalço, pedindo número X de laudas para os dias da orientação.

As crônicas, artigos e críticas literárias surgem mais rapidamente. Basta eu sentar, escrever uma linha e o resto flui. Esses textos também são curtos. Serei um escritor de fôlego curto? É o desafio a que me propus no próximo romance: escrever um livro que pare de pé, provando para mim mesmo que curto é só o meu salário de professor.

____

Cassionei Niches Petry é professor de Literatura, Língua Portuguesa e Língua Espanhola. É mestre em Letras. Autor do livro de contos “Arranhões e outras feridas” (Multifoco, 2012) e do romance “Os óculos de Paula” (Livros Ilimitados, 2014). Mantém a coluna “Traçando Livros” no caderno Mix do jornal Gazeta do Sul. Também é colunista do site Digestivo Cultural e colaborador do site Amálgama.

1 resposta »

  1. Conheci este site justamente por compartilhamento de Cassionei. E por isso deixo a mensagem neste espaço, embora tenha me deliciado neste domingo com as “histórias” de outros escritores. Parabenizo o autor pelo projeto 2 mil toques. Quanto a esse autor, é uma pessoa cujo trabalho admiro já a algum tempo, tendo tido recentemente a honra de ter o prefácio do meu livro “Manifesto Sem Eira Nem Beira” escrito por ele.

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