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Kátia Bandeira de Mello-Gerlach

Quando termino uma história, tenho diante de mim a máquina acabada, um sonho que recuou no tempo, impressões com centro de gravidade.  Auxiliada pelo Deus dos Pequenos Cemitérios, ressuscito um a um personagens que se calam nas lacunas do vazio que é a vida.  Peregrino os olhos pelos jornais, busco notícias sensacionais, quem me aconselhou foi o Carrero, meu admirável amigo e mestre; descubro que os nova-iorquinos estão vestidos de super-heróis, calho de encontrar os Quatro Fantásticos no vagão do metrô.  Subo a escadaria nua e suja que dá para o escritório, onde confrontarei os Dias da Criação; suspiro profundo, salvei-me dos perigos da cidadela encravada no asfalto e nos arranha-céus e o céu de tão arranhado sangra um líquido branco e tóxico, um pus, é a purulência humana a se despejar sobre mim e sobre as crianças também, a inspirar-nos.  Perco o ar, os pulmões não se saciam com este oxigênio enegrecido a diesel.  A sentença judicial de que tudo acabará foi decretada.  Primeiro, a extinção dos livros elétricos, depois a sede e os flancos pararão de vibrar.  Um bocejo. Eis-me no topo do edifício marrom que abriga noutros andares uma escola para bartenders e um bordel russo disfarçado de agência para modelos.  O mundo é estrepitoso para todos nós; nós, os escritores, os piores farsantes, os fantasmas com um único corpo, o coração; em muito superamos o cafetão, o chefe do bar que embriaga os alcoólatras, parasitamos nas margens, damos toques e toques no teclado como se uma redoma nos protegesse de todos os pecados e enfermidades.  Inocentados pelo papel, ah isso seria bom na hora final, na extrema unção, na publicação das palavras que nada mais é do que o caixão entreaberto de onde emana a gargalhada sinistra do orangotango da Rua Morgue.

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Kátia Bandeira de Mello-Gerlach é jurista e escritora brasileira radicada em Nova Iorque.  Lê e escreve sob a disciplina de um lavrador.  Faz parte da Universidad Desconocida do Brooklyn e é membro do Paragraph (www.paragraphny.com), onde possui um cubículo cercado por divisórias cinzentas e aveludadas.  Em dias de sorte, consegue sentar-se perto de uma janela e captar raios de sol que, doutro modo, se perderiam.  As sirenes lhe soam musicais.  Arrisca-se a adorar a solidão e o Dicionário Analógico da Língua Portuguesa.  Sim, a escritora tem dois filhos maravilhosos que a resgatam diariamente da obsessão de escriba. Amém. Seus livros podem ser adquiridos a partir de www.oitoemeio.com.br  e www.katiabandeirademello.com.

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