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Alexandre Brandão

Em “Paris não tem fim”, livro no qual Enrique Vila-Mattas de certo modo atualiza “Paris é uma festa”, de Hemingway, o escritor espanhol, na voz de seu personagem, conta que Thomas Mann tinha fama de ser um sujeito metódico, dono de uma escrivaninha cuidadosamente organizada: lápis aqui, apontador ali, folhas mais adiante. Essa característica fazia com que o autor de “Morte em Veneza” estivesse ligado aos escritores sedentários (em contraposição aos caminhantes). O alter ego de Vila-Mattas, que escrevia no caos, um caminhante, portanto, rechaçava os modos do alemão, porém, à medida que foi envelhecendo, viu-se cada vez mais parecido com ele, disciplinado, até mesmo neuroticamente disciplinado.

Faço essa digressão porque vou na contramão dessa história. Quando jovem, precisei de disciplina, de organização, uma forma de convencer a mim mesmo de que, se queria tornar-me escritor, seria preciso abandonar muita coisa e seguir certas regras. Na minha infância de escritor, à noite, na maioria das vezes à noite, me valia de um quarto silencioso, no qual, se tanto, ecoava uma música um pouco melancólica. Nada de bebida ou outras substâncias que me afastassem da mais deslavada consciência. Nunca precisei de lápis e apontador, já que o mundo era outro e desde cedo escrevi direto na máquina de escrever e, depois, no computador. Sendo assim, sobre a mesa, um dicionário e as contas a pagar, que vivem, por hábito, nos lugares errados.

Os filhos impõem a uma casa outra dinâmica. Não só promovem barulho como exigem que os adultos durmam cedo, para estarem muito despertos na manhã precoce do outro dia. Como quis ser um pai que cuidava dos filhos da forma mais parecida com que o fazem as mães, a rotina quebrada exigiu que eu, o escritor, me reinventasse. Assim, aprendi a escrever com barulho e interrupções, ora para esquentar um leite ou trocar uma fralda, ora para ler um livro para um dos dois meninos ou para a menina, ora para ir buscá-los nas festas. O jovem sistemático, um bem-iniciado Thomas Mann, sofreu um revés. De escritor sedentário para escritor caminhante. Num golpe.

Desse modo, fui aprendendo a escrever em qualquer circunstância. Hoje, até mesmo no fim de tarde no escritório — quando muitos elevam a voz para anunciar que estão indo embora, e várias rodas se formam para o último papo do dia —, eu escrevo. Não me distraio (agora, por exemplo, escrevo nesse ambiente) e, escolado com a vida paterna, sei também dar uma parada, falar alguma amenidade que mostre que estou com meus colegas, que sou um deles, e voltar à escrita.

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Escritor mineiro que vive no Rio de Janeiro, Alexandre é autor de livros de crônicas e de contos, entre eles “Qual é, solidão?”, lançado em 2014 pela Editora Oito e Meio. Foi vencedor do “Bolsa do autor”, da Funarte, em 2000, escreve para a revista Rubem (rubem.wordpress.com) e mantém o blog No Osso (noosso.blogspot.com.br).

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