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Raimundo Carrero

Acordo, geralmente, entre 5 e 6 horas. Depois da higiene matinal, da leitura dos jornais – sou viciado em jornal impresso -e do café, tranco-me na biblioteca e me preparo para escrever obstinadamente. Depois do AVC, com as minhas limitações físicas, sento-me na poltrona da sala para resistir às dores nas hérnias de disco, coloco o laptop à altura da cintura e escrevo apenas com o indicador da mão direita, os dedos da mão esquerda não se movem. Trabalho quase sem pausa. Um romancista precisa sempre de rotina.

Mesmo assim, para começar a rotina do dia, leio tudo o que escrevi, faço revisões, tomo anotações – consulto as anotações que fiz em papéis, cadernos e em agendas enquanto trabalho, leio ou dou aulas, rezo ao Divino Espírito Santo e só então começo o trabalho. A tarefa de rever tudo o que já está escrito, seguida das anotações, toma muito tempo, mas deve ser feito até para que possa reconstruir espiritualmente o clima do romance, por exemplo, as atitudes dos personagens, e o tom do texto.

Respiro um pouco e me ponho a trabalhar, mesmo se a televisão estiver ligada e faço isso durante, pelo menos, duas horas, tempo suficiente para escrever cerca de uma página e meia. Antes que chegue o almoço, trabalho mais uma hora, completando as duas páginas ou um pouco mais. Se estiver cansado, paro. Cansaço não combina com criação.

E duas páginas diárias, é o suficiente para qualquer autor.

Posso, eventualmente, escrever à tarde ou à noite, mas reservo esses períodos para a atividade crítica, para as aulas, para leitura e estudos, ou para redigir apostilas para as oficinas literárias. Não costumo dormir tarde da noite para que minha mente esteja sempre disposta. Esta é uma regra elementar – não ocupo a mente com besteiras, sobretudo se estiver escrevendo um romance. Se possível evite ir a debates, ver filmes e teatro, pois tiram o foco narrativo e interferem na condução do trabalho. O mais importante, o mais importante e fundamental é a obra.

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Raimundo Carrero é um dos escritores mais premiados do Brasil, com reconhecimento da crítica e dos leitores. Com As sombrias ruínas da alma ganhou o prêmio Jabuti, conquistando ainda os prêmios Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e Machado de Assis, da Biblioteca Nacional com Somos pedras que se consomem, além do prêmio Revelação do Ano, em Porto Alegre, com o romance Viagem no ventre da baleia. Em 2008, foi finalista do prêmio Portugal Telecom com O amor não tem bons sentimentos, que também apareceu na lista dos melhores do ano dos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. Em 2010, por A minha alma é irmã de Deus, recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional, de melhor romance do ano, e o Prêmio São Paulo de Literatura, como melhor livro do ano. Em 2015, seu romance O Senhor Agora Vai Mudar de Corpo, foi premiado pela APCA como o melhor romance do ano.

 

 

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