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Leandro Jardim

​Reescrevo mais do que escrevo. Sou melhor reescritor do que escritor. Minhas primeiras versões, confesso, não são lá essas coisas. Mas, se farejo algo que me espanta naquilo que nasceu de um pensamento ou impulso, não canso de cavucar e lapidar até que me satisfaça uma forma final. Escrevo prosa e poesia, são formas que requerem tempos e rotinas um pouco distintos. O poema é mais carregado na inspiração original, é a explosão, sim, de algum sentimento, mas que é ao mesmo tempo remoído por uma razão que se permite ser emotiva. Dos cacos, nascem os primeiros versos. Ainda não um poema. Então vêm as semanas consecutivas em que aproveito cada brecha para reler, ampliar ou reduzir, alterar e voltar atrás, reescrever, enfim, manusear incessantemente cada verso, cada palavra. No poema, todo detalhe conta, é o máximo do mínimo. Na prosa, o caminho é parecido, mas o fôlego requerido pelo enredo é maior. Brechas são insuficientes, é preciso retirar a fórceps da rotina diária um espaço para a prosa. Durante quase um ano, por exemplo, levantei perto de cinco da manhã para me dedicar a um romance antes que meu filho pequeno acordasse. Escrevo, leio, releio, reescrevo. Chega uma hora em que sinto o olhar viciado, é preciso dar um tempo e retomar mais tarde. Para mim, é precioso, quando possível, o olhar crítico de um primeiro leitor: a esposa, o amigo, o parente ou o colega de ofício. Todos têm sempre muito a dizer sobre os pontos cegos de cada texto. Ah, e têm também as letras de canção, os encontros boêmios com os parceiros, acompanhados de violão, lápis e conversas derramadas. Sobre a inspiração, acredito que não possa ser domesticada, mas estar aberto a ela é um exercício constante. Observar como se movimentam os outros, ouvir suas entrelinhas, perceber como o cenário ou a temperatura afetam as interpretações, às vezes esquecer que só existem intepretações, perguntar-se sobre os porquês dos porquês, ter empatia pelo outro e pelo mundo. Todo mistério haverá de ser a forma de arte pela qual o mundo se expressa. A brincadeira é tentar capturar. E com a ferramenta que estiver à mão: do guardanapo ao moleskine, da tela do celular à do notebook. Por aqui, os textos gostam de pular de um meio a outro enquanto amadurecem, cada um a seu tempo. Até que chega uma hora derradeira em que alguma coisa de definitivo nasce. Não tenho mais motivos para reescrever. Me toma uma espécie de alívio em que por alguns segundos tudo faz sentido no mundo. Até a minha existência. Felizmente, logo passa. E posso enfim recomeçar.        

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Leandro Jardim é escritor de poesia, prosa e letra de canção. Publicou a novela “A Angústia da Relevância” (2016), “Peomas” (2014) e o livro de contos “Rubores” (2012), todos pela Editora Oito e Meio. Além de outros dois livros de poesia, ‘Os poemas que não gostamos de nossos poetas preferidos’ (Orpheu, 2010) e ‘Todas as vozes cantam’ (7Letras, 2008). Possui contos publicados nas antologias “Veredas – panorama do conto contemporâneo”, “Para Copacabana, com amor”, “Porto do Rio” e na “Revista Pessoa”. Em parceria musical com Rafael Gryner, lançou os EP’s “O Sonhador” (2014) e “Sementes musicais para um mundo cibernético” (2011). Também escreveu canções com parceiros como Diogo Cadaval (banda Mocambo), Matheus VK e Clara Valente.

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