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Hugo Pascottini Pernet

Escrevo porque acredito na existência de dois mundos: um escrito e outro não escrito. Li essa frase pela primeira vez no livro do Ítalo Calvino Mundo escrito e mundo não escrito. Na obra, o autor diz ainda que a principal razão para se afastar do mundo escrito e se aventurar “neste vasto mundo que não é capaz de dominar” é simples: para escrever. “Porque sou um escritor. O que se espera de mim é que eu olhe o meu redor e capture imagens rápidas do que acontece, para depois inclinar-me sobre a escrivaninha e começar o trabalho.” E em seguida conclui: “É para repor em movimento minha fábrica de palavras que preciso extrair novo combustível dos poços do não escrito.”

Comecei este texto com mais enfoque às argumentações de Calvino, pois observo em suas palavras uma das principais virtudes de um escritor: a obsessão. Sem paciência e persistência, o escritor deixa todos os originais arquivados em pastas no computador. Sou um escritor obsessivo, bem ao modo de produzir que Rubem Fonseca defende: “Não uma paciência qualquer, mas a que o imperador romano Augusto cultivava, segundo Suetónio: Festina lente. ‘Apressa-te devagar’. Nunca parar de fazer, mas fazê-lo devagarinho, como diria um bom alentejano. Todos os dias.” Aliás, Rubem Fonseca é dono de uma das frases com que mais concordo sobre processo criativo: “Escrever é uma forma socialmente aceita de loucura.” Mas deixemos esse assunto para outra ocasião.

Dificilmente escrevo de manhã porque sinto muito sono no começo do dia, quando meu pensamento ainda está muito lento. Por isso, após acordar, leio, ora livros de ficção, ora sobre técnicas literárias e, às vezes, jornal. Escrevo de modo mais produtivo de tarde, de noite e de madrugada, quando minha mente já está bastante estimulada por excessivas xícaras de café. Além das longas doses de cafeína, somente preciso de um computador e silêncio para transformar minhas ideias em narrativas. São minhas únicas exigências para encarar um dia de trabalho. Não sou como Truman Capote que tinha o estranho hábito de, além de somente escrever deitado, não começar ou acabar nenhum trabalho em sextas-feiras; pedia para trocar de quarto no hotel se houvesse o número 13 na sequência do telefone, e nunca tinha mais que três beatas no cinzeiro. Também não preciso digitar de pé, como Hemingway e Fernando Pessoa.

Para conhecer novos autores, estilos e receber críticas sobre meus textos, gosto de me inscrever em oficinas literárias, em especial as da Estação das Letras, da Suzana Vargas, e as da Carreira Literária, da Flavia Iriarte, também fundadora da editora Oito e meio. Inclusive, integro a confraria literária Os Quinze, que se originou no Estúdio do Conto, ministrado pelo escritor José Castello, em reuniões mensais na Estação das Letras. Resultado: nós, Os Quinze, publicamos, em 2016, o livro de contos Contágios pela editora Oito e meio e continuamos até hoje nos encontrando mensalmente. Com isso, fica clara a importância de o escritor sair também de seu próprio casulo e conhecer outros profissionais da área.

Certa vez, o escritor Affonso Romano de Sant’Anna disse: “Abrir-se à arte é dar um salto mortal no escuro, para que todos vejam.” Escrever é tão perigoso que necessita, na maioria das vezes, de um outro trabalho – mas um trabalho convencional – que dê ao escritor segurança, seja emocional, seja financeira. O trabalho longe da ficção é a maior invenção do escritor. Não é fácil imaginar uma atividade que lhe dê dinheiro para sustentar a família e a casa; tempo para ler, escrever e pensar sobre o mundo. Além disso, essa atividade deve manter a saúde do escritor nos limites indicados pelos exames médicos, para ele conseguir acordar cedo, se dedicar a essa profissão escolhida e depois se sentar para trabalhar em seus livros de ficção.

Em uma entrevista, Stephen King disse que ministrar aulas de inglês o dificultava no desenvolvimento de sua escrita criativa. “O problema em lecionar e escrever ao mesmo tempo é que as aulas roubam parte da criatividade da literatura. Se tiver que fazê-lo é melhor… é como a gente lê a biografia do autor na capa, foi lavador de prato, estivador, segurança, marqueteiro. Às vezes é até melhor.” Hemingway propagava ideias semelhantes ao atual pensamento de Stephen King ao dizer que não há problema algum em o escritor ser jornalista, contanto que ele saiba o momento certo de abandonar as redações. Como Hemingway também não consigo conciliar a escrita de textos jornalísticos – e toda sua característica objetiva, direta e concisa – com textos literários. Decidir a qual emprego secundário se dedicar é um dos maiores desafios do escritor.  Para mim, talvez essa seja hoje a maior dificuldade dessa história toda.

Escrevi meu primeiro romance e já enviei o original a alguns escritores. Prefiro pagar um valor X e escrever um ótimo livro a pagar o mesmo valor a uma editora para publicar um livro mediano. Não se trata de insegurança. Talvez seja perfeccionismo. Gosto de produzir desta forma: preciso de críticas confiáveis antes de procurar a publicação. Mas hoje penso em não desanimar se receber respostas negativas de diversas editoras, porque, como Saramago já disse, “somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não”.

Obs: Desculpe-me se extrapolei demais os dois mil toques: nem sempre conseguimos seguir as regras – embora neste caso seja apenas uma orientação – que cercam o mundo escrito. Se é que elas existem.

Hugo Pascottini Pernet nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Formou-se em jornalismo pela PUC-Rio. Participou de algumas coletâneas, como Contágios, organizada pelo escritor José Castello, e Escritor profissional – Vol.3, ambas publicadas pela editora Oito e meio. Além disso, já publicou seus textos em sites e jornais de literatura. Integra o grupo literário Os Quinze.

2 respostas »

  1. Lindo texto,Hugo Pascottini Pernet.Acredito,muito no seu talento . Para se chegar ao “sucesso” a sabedoria e a persistência andam juntas.
    Sucesso é questão de tempo.

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  2. Parabéns Hugo. Amei o seu texto. Agradável de ler, com várias inserções interessantes. A que mais gostei foi “Apressa-te devagar”.
    Abraço e sucesso!!

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