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Joelmir Zanette

Escrevo porque penso demais, e às vezes, só às vezes, penso que as coisas que penso são coisas boas, aí escrevo. escrevo porque leio, e quem lê, sente em algum momento da vida vontade de escrever; não sou escritor, sou um leitor que escreve, o que é bem diferente. escrever cura, e se não escrevesse provavelmente passaria o dobro do tempo que levo escrevendo falando com um psiquiatra. escrevo coisas que ninguém lê, escrevo coisas que só uma pessoa lê. escrevo e apago, trabalho exaustivamente em um único parágrafo e depois fecho o arquivo sem salvar. tem dias que dá angústia, tem dias que dá tesão, tem dias que viajo para outros mundos através da imaginação que nem sabia existir em minha cabeça. na escrita destilo todos meus desafetos, meus ódios e meus amores, intimidades que jamais conseguiria expor de outra forma. minha escrita não é real, tudo é invenção, não falo do que existe. minha escrita é real, não sei inventar. escrevo para me esclarecer e para me confundir. gosto de poesia, cerveja, cabelos crespos e ponto e vírgula; coisas que sempre me inspiram. escrevo como bato no saco de boxe, vinte minutos de narrativa, dez de pancadas; enquanto bato penso, e quando penso, escrevo. escrevo entre um cigarro e outro, entre uma cerveja e outra, entre o carinho no gato e o jornal das oito. escrevo quando no fim do mês acaba o dinheiro e não consigo ir pro bar encher a cara. escrevo e nem sei se isso é bom, como qualquer vício é um perigo eminente. escrever é passar do ridículo ao genial em uma frase, quiçá, em um parágrafo. compartilho da idéia do andré; medianos esforçados são melhores que gênios acomodados. escrevo porque invejo a narrativa do marçal aquino da lygia fagundes telles do glauco mattoso da noemi jeffe do mário bortolotto e de muitos outros escritores que li aqui no 2 mil toques. escrevo porque acredito que deus mora na sintaxe, nos adjuntos adverbiais, nas conjunções e preposições. escrevo porque gosto de jazz, e a cadência do jazz me envolve e me inspira. escrevo porque aos treze anos conheci simões lopes neto, negrinho do pastoreio, salamanca do jarau, mboitatá. escrevo porque cresci ouvido meu pai declamar jayme caetano braun, aparício silva rillo, joão de cunha vargas. escrevo porque nasci com isso, essa maldição de viver pela linguagem. das rimas dos racionais à poesia do paulo leminski, escrevo porque a máquina não pode parar, e eu, sou só mais um operário fazendo essa porra toda funcionar.

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Joelmir Zanette é catarinense, natural de Chapecó, estudante de letras, montador audiovisual e escritor sazonal. Autor do livro Amargo Mastigar, ainda inédito, publica seus contos em https://medium.com/@joelmirzanette

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