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Marcelo Labes

Não se trata de qualquer dissabor, de qualquer angústia, de qualquer dia cinza. Não se trata de muita coisa além do texto: é ele que coordena, que dirige e aconselha. E eu ali no meio? Penso que rumino palavras por dias, meses, até que o texto flua para o papel. Nunca sem conflito, nunca sem cansaço. Acho que dá de pra perceber o alívio que deixa um poema escrito e terminado. Faz tempo não tiro tempo para a escrita como deveria. Das últimas vezes que permiti que o texto fluísse, escrevi dois livros – e não fiz mais nada da vida enquanto não dissesse o que precisava ser dito.

Sou um burocrata das primeiras fileiras, atendo ao público, todo dia a sala cheia. Entre atendimento e outro, a deixa: a tela em branco do computador, o poema, alt+tab, o trabalho, alt+tab, o poema, alt+tab… Escrevo aos poucos, mesmo um poema curto, e é nos contratempos que encontro o tempo necessário para repensar o lugar e a importância das palavras naquilo que pretendo e me permito dizer. Há dias em que a poesia não se encerrará em versos, dá pra perceber logo cedo da manhã, e nesses dias é melhor evitar o papel, evitar o poema, sob a pena da decepção.

Decepção da não escrita. Parece-me que ao escritor cabe escrever e é isso que faz dele útil ao mundo. Assim me percebo: buscando minha parte de utilidade. Então o texto não é prazer, mas obrigação. E se consigo lidar com isso ainda cedo, quem sabe a noite garanta sossego. Se não, a angústia, a insônia. Até o bloqueio. Até a sensação de que não faço parte dessa gama de gente que envolve pessoas com palavras. Então um leitor aparece para falar de um poema, então um amigo aponta uma ambiguidade numa frase, e o sentido reaparece: volta a coragem de encarar o papel ou a tela em branco. E escrever não é isso, ter coragem para encarar o vazio e procurar preenchê-lo?

A vida não deve se vestir de poesia, penso. O contrário, porém, me parece honesto: a poesia é que deve se encher de vida. Por isso é que presto atenção às pessoas, aos carros passando, ao cão mijando no poste, aos olhares, aos tropeços, às caminhadas alheias: é isso, a meu ver, que precisa ser dito e repetido para não que não caia tão rapidamente no esquecimento. O trivial é poético e é com ele que lido, com este mundo, porque não vivo em outro, simplesmente.

Marcelo Labes é natural de Blumenau-SC. Publicou seu primeiro livro de poemas, Falações, com 22 anos. Depois, aos 30, volta a publicar com Porque sim não é resposta, livro de um poema só. No ano seguinte, em abril de 2016, publica O filho da empregada e entra na vertigem do financiamento coletivo para publicar Trapaça, o segundo volume de poemas, publicado em dezembro deste ano pela Oito e Meio. Escreve mais do que dá conta de publicar em papel, por isso a internet. Pode ser lido aqui http://mmlabes.blogspot.com e aqui http://facebook.com/matematicaligraficamentira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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