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Eduardo Sens

Dois mil toques significam exatamente duas mil cutucadas no teclado para ver se dali sai algum bicho estranho. Pode ser um buraco preto. Clichês falam em folha branca; nunca entendi. É um buraco. Vale a pena o risco? Cutuco achando que no máximo uma saúva me morderá para aprender a não errar de novo. Começa assim, mas o buraco tem mais para ser explorado. Aqueles olhos brilhantes, compridos e com jeito de velha marrenta não me enganam. É uma cobra. Coragem, homem, digo para mim mesmo. Puxo um pouco e depois da cabeça vejo algo que se assemelha a ombros. Seria uma variação genética de réptil deslocada no tempo? Um pescoço estufado com a morte que veio pela boca? Cobra não tem ombro – que eu saiba.  Mais toques. Aprofundo. Já estou convencido de que a solução é me agachar e engatinhar para dentro. Com licença, digo mais para me acalmar do que por educação. É macho? Parece que tem ovos. Ninho? Desculpe a invasão de domicílio, preciso deslizar. Peito no chão. Pernas compridas, gigantes, escamas, uma orelha verde. Projeções ósseas nas costas. Devo ter caído para uma camada inferior. Um fóssil debaixo do meu nariz? Toque, mais e mais toques. O teclado vira inimigo. Esse dinossauro não cabe aqui. Euqot, toque ao contrário: tecla del. Inimiga do autor, amiga da perfeição. Euqot, o bom toque. Com quantos euqot se faz um romance? Logo surge um assassino mendaz, que envolve mulheres carentes em busca de sua satisfação de necrofílico. O vilão deixou mais um corpo aqui, algemado numa raiz dura. Cutuco. Parece viva. Tem os olhos fechados e a boca mais angulosa e macia que alguém jamais viu, pequena forma de amor, capricho mendeliano, flor de carne e cor e gosto. Toco de leve seu rosto. Está quente, ferve. Febre narcoléptica? Água! Alguém me traga água. Respondem: Água? Água? Demoro até perceber: eco, um eco longo, profundo, retumbando no lugar para onde sinto que devo ir. Tenho um abismo sob meu esfolado peito. Não vejo luz. A mulher não tem corpo, não tem pernas. Confiro e já nem cabeça tem; apenas os lábios, secos, duros, frios. Euqot. Menos toques; mais ação. Sorte ter enrolado em meu ombro a corda de sisal herdada de meu tataravô. A raiz que antes me impedia agora me impele. Laço teso, firme nó. Pulo para o nada, para o precipício, para a parede irritante que rebate atrasada meus barulhos. Ahhh! O sol da Nigéria gratinando as casas no vale lá embaixo e só então, manhã alta, dois mil toques depois, o personagem surge. Remando no rio.

Eduardo Sens nasceu em Florianópolis e já trabalhou em Porto Alegre, Curitiba e em todas as regiões do Estado de Santa Catarina. Hoje vive com a esposa e dois filhos em Chapecó, cidade que adotou  ̶̶̶  ou que o adotou, nem ele sabe bem ao certo. Publicou dois livros jurídicos e duas dezenas de artigos na área do Direito, com premiações na área. Depois de vencer o Prêmio Literário da Logosofia percebeu que o mundo era mais divertido lá fora. Escreve mensalmente a coluna Histórias, na Revista Bicicleta, e se diverte com contos e crônicas. Em 2017 lançou o conto infantil “O menino que adorava torradas”, com ilustrações de Helton Mattei. Promete para até o final do ano seu primeiro romance.

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