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Dennis Radünz

Nunca me perguntei como chego à “mina d’água das palavras que dessangram a coisa escrita”, mas respondo, e começo por me procurar no mistério da mesa, entre o dicionário etimológico e as notas fiscais de pessoa física, entre a caneta comum e azul e uma folha de ofício avulsa onde anoto palavras à espera – porque os poemas sempre partem de palavras, apenas, e as prosas, de um espaço físico. São vésperas do sentido que, por fim, acaba dissecado e recomposto no velho Word, à procura do espaçamento, do melhor ou do pior vocábulo e da respiração exata, como se escrevesse em “apneia”.

Sou animal de hábitos diuturnos – escrevo a qualquer hora, às vezes, e pouco, mas quando escrevo é com velocidade – e necessito, na rotina, leituras de antropologia e das notícias do mundo (o infra-americano, principalmente); necessito do cinema-arte e da música popular e impopular; necessito do estudo lento de algum enigma (física quântica, ultimamente).

Mas a matéria da palavra é vácua e é preciso, sempre, deitar por dez minutos e idear a coisa a ser escrita, seu vir a ser de escrito longo ou cinza, e prever esse futuro da escritura e só depois tocar o notebook com entusiasmo. Às vezes, um poema trava e é necessário, no banho, cantá-lo, para alcançar sua harmonia. Às vezes, a prosa estanca – porque conto e crônica são correntes sanguíneas – e é imperativo pesquisar nos sítios eletrônicos, por exemplo, a que velocidade nadam as baleias-francas ou, ao contrário, é inútil esquecer o que são as cidades sedadas para fazer poemas sobre a cidade sedada.

No mais, o que faço para escrever é fotografar – no celular – uma atmosfera, cena, acaso; ou beber cerveja artesanal de trigo; ou compor haicais na mente pra depois perder; ou conversar com (x) e (y) como se saíssemos de um noturno indiano de Antonio Tabucchi. Tudo alimenta a minha escritura que é mais oitiva: uma escuta. Ou fazer trilhas pela Ilha de Santa Catarina. E fazer listas de coisas a escrever. E sexo.

Eu escrevo para me demorar na vida.

Dennis Radünz nasceu em Blumenau (SC) e vive na Ilha de Santa Catarina (Florianópolis). Publicou os livros de poemas Exeus (1996; 2ª. edição: 1998), Livro de Mercúrio (2001), Extraviário (2006) e Ossama: Último Livro (2016) e a antologia das crônicas publicadas semanalmente no jornal Diário Catarinense, o livro Cidades Marinhas: Solidões Moradas (2009).

 

 

 

 

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