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Cristiano Moreira

Nasci perto do mar, na beira do rio. Mesmo sem saber, meu trato com a criação foi moldado com as marés e com os barcos: efeitos de lunações. As variações lunares da escrita. A escrita por vezes surge na minguante outras vezes na maré vazante da lua cheia. Escrevo as imagens que me assolam (como aquelas imagens que surgem no lodo quando baixa a água do rio). Às  vezes os textos encalham em minha página, outras à deriva perdem-se no pensamento. Sobram fragmentos, desmontados. Como espécie de carpinteiro trabalho para reconstruí-los. Às vezes uma imagem apenas me toma o corpo e mente, me invade e vive em mim por longo tempo ao ponto de esquecê-la. Não, não escrevo diariamente. Faço muitas coisas. Mas em certo ponto, como uma maré que sobe, com barco tomando forma deito estas imagens no papel e ali restam, residem, restituem-se tempos depois em um poema ou livro. Gosto de pensar o livro como projeto. Meu primeiro livro, uma história de naufrágio. O segundo foi sobre a morte de um Calafate. Há uma performance de papagaios que está no papel e aguarda execução dos cortes finais. Vivia perto do mar e escrever para mim era como fazer filé de peixe. Afiar a faca, sacar as escamas e vê-las voar como bolhas de sabão; cortar a carne frágil do peixe ligeiro. Escrever, assim como outros gestos manuais (do alfaiate, do barbeiro, do carpinteiro) exigem paciência, medidas, desejos.

Hoje vivo perto do mato e aprendo outro movimento que é o dos insetos, das plantas, cupins e águas. Aprendo com a tipografia e o que era maré agora são idas e vindas do prelo, descer e subir de rolos marcando os tipos para o tímpano de impressão. Me realfabetizo neste ambiente mais movimentado do que uma cidade (embora a maior parte das pessoas pensem o contrário de um sítio) do dia para noite há uma teia no caminho; a planta viçosa serviu de alimento para formigas, o cupim frágil, rói a madeira dura. Entendo também, minha escritura se reformando na medida em que aquilo que era maré vai lentamente se transformando e seguindo a respiração do musgo, a marcha de formigas, os sapos tanoeiros, os ferrões de marimbondos e quando a pele ferroada ferve e incha é porque há o que escrever novamente. Então outro ritmo se imprime na roça da página e dos poemas. Aqui perto do mato sou ainda mais econômico com as palavras. Escrevo em casa, sem hora certa. Falo pouco, escrevo pouco, ao menos no papel, ao menos no que dou a ler.

Cristiano Moreira nasceu em Itajaí, SC em 1973. Doutorando em teoria literária. Como produtor cultural desenvolve projetos na área do livro e leitura. Criou com Patrícia Costa e Jakson Chiappa a Quinta da Gávea – Hospedaria e Quintal Criativo onde reúne em um sítio na cidade de Rodeio- S.C. , a Hospedaria, a Biblioteca Rural e a Oficina Tipográfica Papel do Mato. Publicou os livros de poemas Rebojo (Bernúncia, 2005), O Calafate Míope (Papaterra, 2009), Infância do Pife (Dengo-Dengo Cartoneiro, 2011), Imagens da madeira 20 epigramas – publicados na Revista Bólide e o livro infanto juvenil Dengo Dengo (Papaterra 2016). Traduziu o livro do escritor chileno Rodrigo Naranjo Apartados (Papaterra/La Cebra, 2011). rebojos@gmail.com | http://www.quintadagavea.com.br

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