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Fabio Rabelo

Anos atrás… ainda pré-adolescente e sem entender de fato o que era a tal literatura e seus estilos, ademais de qualquer pretensão de ser um “escrevedor de coisas ou poesiador de sentimentos”, eu escrevia frases ou fragmentos meio desconexos de meus pensamentos. Não importava hora nem local, bastava apenas ter lápis e papel em mãos. Em seguida, perdia o que escrevia, jogava fora, ignorava. Naquele então, escrever era quase que instintivo, como qualquer outra ação necessária de meu corpo – compreendendo anos mais tarde que dita necessidade era da alma. Aqueles fragmentos continham pensamentos, emoções, sensações, certezas e incertezas infantis, sonhos, fantasias e muito do que permeava o universo no qual vivia numa cidade chamada Rui Barbosa, localizada no interior da Bahia.

Já com meus vinte e poucos anos, aquelas frases foram tomando formas, crescendo e tendo mais sentido, ganharam um rumo e viraram poemas. De repente me dei conta que independentemente do nome que se dava ao que eu escrevia, de fato era minha forma de expressão, minha via de catarse, de manifestação, minha voz enquanto permanecia eu calado e sem prumo. A partir daí, em se tratando da poesia, embora não estabelecesse uma rotina ou mesmo um ritual para acomodá-las em um pedaço qualquer de papel ao meu alcance, em páginas de um caderno ou diretamente de um computador, conscientemente, passei a utilizar muito mais do benefício da escrita. Tanto, que estou certo de que o ser humano que me tornei é também o resultado do que escrevi e escrevo, porque à parte a habitual “faxina interior”, releio-me e me descubro e redescubro.

Mais tarde, sem ser um antigo desejo senão que movido por incursões no teatro, decidi tentar escrever algo mais longo: com início, meio e fim, onde eu pudesse fundir algumas histórias armazenadas em minhas lembranças e, que mesmo sendo um clichê, usarei a palavra parto, pois tardei exatamente nove meses para escrevê-la, convertendo-se em um romance intitulado “Eterna Évora”, publicado em agosto de 2014. Atrelado a este romance não tive como fugir – e nem quis – de certa e fundamental disciplina para escrevê-lo com uma frequência quase diária e sobretudo nos fins de semana e feriados, justamente para que houvesse fluidez e o frescor dos parágrafos que iam se armando em minha mente.

Sou dos que geralmente transportam para o papel o que já foi escrito na mente e, portanto, salvo até que se esvazie novamente o “HD” cerebral.  Como se tratava de uma história na qual eu queria imprimir todo sentimento possível em cada personagem, detalhes dos acontecimentos, veracidade das informações, etc., isto fez com que eu mergulhasse em pesquisas, rememorasse características de situações utilizadas do cotidiano real para o ficcional. Tudo isso, realizado em ambientes onde eu estava sozinho e costumeiramente permeado pelo silêncio, quando não, acompanhado de alguma trilha sonora que ajudava a compor os parágrafos/situações escritas no dia.

Por último, descobri que podia ousar um pouco mais e ensaiar escrever contos, pois comecei a sentir uma necessidade similar a de quando queremos contar algo imediatamente a alguém, algo que quase não respiramos e disparamos a contar do início ao desfecho. E assim foi e tem sido com mais este estilo literário, que muito me compraz, exatamente pela possibilidade de criar ou recriar uma história breve, mas que merece ser registrada ao menos naquele curto tempo que sobra no dia.

Contudo, embora jamais abandone a prosa, são os versos o que mais me agrada escrever, por um motivo simples: minha poesia não exige nada além de que seja eu mesmo; sou eu externalizado a qualquer hora, lugar, circunstância. Mas seja como for, qual estilo seja, com ou sem rituais, opino desde um lugar despretensioso e até desconsiderando qualquer glamour que a palavra escritor carregue consigo e suas colheitas profissionais, que verdadeira e essencialmente, escrever faz antes de tudo… muito bem a quem escreve.

***

Escritor, poeta e contador de estórias, nascido em São Paulo, capital. Tem publicados o romance “Eterna Évora” (Editora Multifoco), o livro de poesias “Fabio Rabelo Poesias com Limão & mel” e poemas premiados e incluídos em antologias na Argentina, Brasil, Espanha e Peru. Ademais, ministra oficinas de contação de estórias e de poesia. Contato: https://www.facebook.com/fabio.rabelo.poesias

 

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