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Itamar Vieira Junior

Logo após você aprender a ler e escrever, passou a arrancar folhas dos cadernos com pautas da escola, para escrever as histórias que povoavam seus pensamentos. Por serem cadernos escolares, não poderia deixar neles conteúdos que não tivessem relação com as disciplinas, ou correria o risco de ser criticado. Formava volumes à parte com essas folhas, que se perderam nas arrumações de sua mãe em seu roupeiro. Aos onze anos, você ganhou uma máquina de escrever Olivetti portátil, e escreveu um romance de mais de 80 páginas, que também se perdeu nas mudanças de casa que precisaram fazer ao longo de suas vidas. Aos dezoito, chegou o primeiro computador, mas precisou dividi-lo com seus três irmãos. Nesse caminho você aprendeu que era necessário ter uma certa disciplina para escrever.

Hoje escreve no espaço de tempo entre suas atividades enquanto servidor público e as rotinas que qualquer ser humano de classe média tem: supermercado, deslocamento para o trabalho, curso de qualificação, consultas médicas etc. Você costuma andar com bloco e cadernos para anotar ideias, sequências de enredo e até mesmo frases para o que está escrevendo, ou apontamentos para trabalhos futuros. Mas quando você está diante do notebook, é porque está pronto para escrever. Gosta da agilidade e da sinergia que advêm da escrita através da digitação. As teclas de computadores e notebooks, cada vez mais leves e silenciosas, contribuem com o fluxo necessário para acompanhar os seus pensamentos, sempre em movimento.

Você costuma dizer que tem duas jornadas de trabalho – como servidor e escritor. Geralmente, escreve ao retornar de trabalho, por volta das 18 ou 19 horas, e costuma se estender por três horas diante do computador, escrevendo ou revisando textos. Nos fins de semana, você pode aumentar um pouco mais essa jornada. Mas também há períodos de “férias” como escritor. Sendo seu próprio “patrão”, você costuma passar um ou dois meses sem escrever, para se esvaziar de ideias e sentimentos até o próximo trabalho.

Você reserva um tempo de duas a três horas antes de dormir para lerliteratura, ciências sociais, filosofia e política. Chama esse tempo dedicado à leitura, de “estudo”. Precisa saber sobre o que escreveram e escrevem os que estão à sua volta e ao redor do mundo. Pensa que para um escritor, ler e escrever são faces de uma mesma intenção. São atividades indissociáveis.  Para escrever bem é preciso ler muito. Deve estudar as propostas estéticas, no intuito de que colaborem com a construção das suas narrativas.

***

Itamar Vieira Junior nasceu em Salvador, Bahia, em 1979. É escritor, geógrafo e doutor em Estudos Étnicos e Africanos (UFBA). São de sua autoria os livros de contos “Dias” (Caramurê, 2012), vencedor do XI Prêmio Arte e Cultura (Literatura – 2012), e “A oração do carrasco” (Mondrongo, 2017), obra selecionada pelo edital setorial de literatura da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia”. Escreveu também um ensaio sobre canções de Caetano Veloso, “Do canto ao ‘canto’: cidade e poesia em Caetano Veloso”, publicado em “Imagens da Cidade da Bahia: um diálogo entre a geografia e a arte” (EDUFBA, 2006). Dois de seus contos foram traduzidos e publicados em revistas especializadas na França.

 

 

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